Por três anos, no final da adolescência, viajei de trem para estudar em outra cidade.

A viagem durava um pouco mais de duas horas, e a escola pertencia à própria ferrovia, portanto tinha passe livre, e podia me alojar onde quisesse dentro do trem.

A viagem de ida era sempre nas primeiras horas da manhã, assim como a volta sempre no começo do anoitecer.

 Naquela época o cinema já era uma das minhas paixões, assim como a fotografia.

A minha diversão preferida para não sentir as distâncias, era escolher uma janela, elas eram sempre retangulares e numa proporção de 2×3, semelhante à tela do cinema ou o quadro da fotografia, e  através dela fixar  o olhar no exterior e ver a paisagem passar como num filme.

Outro exercício era escolher um momento, um quadro, um frame, que mais gostasse e mentalmente disparar a minha câmara fotográfica imaginária. Era interessante observar a aproximação dos primeiros planos e o distanciamento dos planos de fundo, a linha do horizonte e a distribuição das formas.

A excitação aumentava quando o trem parava nas estações e partia lentamente. As pessoas apressadas,  os abraços  e as expressões, era como se eu fotografasse como uma teleobjetiva.

Fiz fotos inesquecíveis, mentalmente, e com uma vantagem, quando não gostava poderia repeti-las na próxima viajem.