Por três anos, no final da adolescência, viajei de trem para estudar em outra cidade.

A viagem durava um pouco mais de duas horas, e a escola pertencia à própria ferrovia, portanto tinha passe livre, e podia me alojar onde quisesse dentro do trem.

A viagem de ida era sempre nas primeiras horas da manhã, assim como a volta sempre no começo do anoitecer.

 Naquela época o cinema já era uma das minhas paixões, assim como a fotografia.

A minha diversão preferida para não sentir as distâncias, era escolher uma janela, elas eram sempre retangulares e numa proporção de 2×3, semelhante à tela do cinema ou o quadro da fotografia, e  através dela fixar  o olhar no exterior e ver a paisagem passar como num filme.

Outro exercício era escolher um momento, um quadro, um frame, que mais gostasse e mentalmente disparar a minha câmara fotográfica imaginária. Era interessante observar a aproximação dos primeiros planos e o distanciamento dos planos de fundo, a linha do horizonte e a distribuição das formas.

A excitação aumentava quando o trem parava nas estações e partia lentamente. As pessoas apressadas,  os abraços  e as expressões, era como se eu fotografasse como uma teleobjetiva.

Fiz fotos inesquecíveis, mentalmente, e com uma vantagem, quando não gostava poderia repeti-las na próxima viajem.

O Relato Afetivo

16/06/2010

Otávio e seu capacete azul

Aproximadamente 90% de toda a fotografia produzida no planeta têm como objetivo registrar momentos familiares, relações de amizades e de convivência.

Desde que a velha e conhecida Kodak nos anos 40, do século passado, popularizou a frase: ”Press de Button, we do the rest”, (aperte o botão e nos fazemos o resto) a humanidade se mobilizou para produzir fotos de suas relações afetivas. As câmaras fotográficas se automatizaram, os filmes coloridos foram produzidos para suportarem erros de exposições até dois f stops para cima ou para baixo. Em contra partida os processamentos de filmes negativos coloridos eram adaptados a esses “erros” bem intencionados, de tal forma que um filme em uma máquina com 36 frames trariam de volta as 36 ampliações 10×15 cm, com leves desvios de cores, porém aos olhos da grande maioria, isso não faria diferença alguma.

Com a passagem para o digital esta atitude não se alterou, fotografa se hoje, ainda mais com o mesmo objetivo de construção de um relato de afetividade.

Mudaram os suportes, e as maneiras de compartilhamento. O velho álbum de fotos em papel no formato de 10×15 cm deu lugar a suportes digitais e álbuns virtuais.

O relato afetivo tem características interessantes. São fotos feitas a 1.60m do chão, o sentido da foto é horizontal, não são passíveis de críticas ou seleção, os enquadramentos são os mesmos. No final, as fotos perdem a autoria, pois são muito parecidas.

Desconfio que se a humanidade sofresse um colapso, e um alienígena que entendesse um pouco de fotografia aparecesse por aqui, acharia que na terra só teria tido um fotógrafo, tamanha a semelhança das fotos, independentemente do suporte que elas se encontrassem.

O mais interessante do relato afetivo é a constância da felicidade dos momentos fotografados e a total ausência das pequenas tragédias familiares, as tristezas e os acidentes não fazem parte desse relato.

Ao fotografar o Otávio, meu filho caçula, correndo no parque da cidade, lembrei-me disso. Suas correrias foram registradas como momentos de felicidade, porém um pequeno acidente, apesar do capacete, teria me obrigado a desligar minha câmara.

O acidente e as lágrimas ficariam sem registro.

ArqueografiaI

19/05/2010

Uma das primeiras capas de caderno TILIBRA – 1979

Arqueografia I Obs. Essa palavra é a junção de arqueologia e fotografia, que criei para falar de coisas do meu passado fotográfico.

 Todo fotógrafo tem sua história. A minha, como a de muitos, começou quando descobri a importância do desenho. Na adolescência a primeira câmara. Formato de filme: 120. Branco e preto, e o aprendizado baseado nas tentativas e erros. Na universidade uma Nikon F, sem fotômetro me acompanhou por muitos anos.

Nessa época a fotografia já havia se associado ao meu interesse pelo desenho, e essa união me levou a uma pós graduação acadêmica nos Estados Unidos com uma bolsa de estudos para um mestrado em Design Gráfico, com uma carga considerável de disciplinas de fotografia.

Voltei para a universidade para assumir minhas funções docentes, e a fotografia permaneceu como a forma de expressão preferida.

1979 foi o ano que pela primeira vez atendi uma agencia de publicidade: a Thomas Propaganda, de Bauru. Uma pequena e criativa agência que tinha entre seus clientes a Tilibra, hoje uma multinacional na área de papelaria. A Thomas teve a ousadia de propor fotos nas capas dos cadernos, e criou uma linha denominada Jeans. Eu fui convidado a fazer as fotos. E pela primeira vez no Brasil os jovens puderam usar cadernos com capas ilustradas com fotos, hoje é um padrão nacional

Ainda não tinha um estúdio, apenas as câmaras e flashes portáteis. Usei uma Hasselblad CM, com uma lente 150 mm. A Agência cuidou da produção. Decidi por uma luz difusa, rebatida. Postei a modelo contra a luz do sol e de frente para uma parede branca. Usei um fotômetro Gossen Pró para conferir a exposição. Fiz um único filme de 12 exposição com frames de 6 x 6 cm. Ektachrome, ISO 64. Marcos Horta era diretor de arte, hoje é um grande ilustrador. Somos amigos até hoje.

A imagem acima é uma reprodução de uma prova da Gamma Fotolito, em S. Paulo, datada de 07 de julho de 1979.

R$ 2,00

12/05/2010

“Sr. Olicio, tenho orçamento de R$ 2,00 por foto, o Sr. Consegue algo parecido?”

A fotografia digital, e a automatização dos equipamentos, infelizmente, instituíram um novo estatuto que gerencia as relações do fotógrafo, seja profissional ou não, e o cliente ou usuário.

A pergunta acima veio da “supervisora de marketing e vendas” de uma empresa de distribuição de produtos para mobiliário, de Bauru, com uma linha de 1200 produtos.

A solicitação de orçamento era de fotos em estúdio, com recortes de fundo, e para serem utilizadas em mídias impressas e eletrônicas; folders e site.

Para ter uma referência do que eles já haviam feito, entrei no site da empresa e vi o tamanho do problema que eles tinham. As fotos com baixíssima qualidade e resolução, com recortes mal feitos e a impossibilidade de ampliação em outra tela. Somando-se a isso a variedade de tamanhos dos produtos, alguns com menos de 01 cm, que exigiriam a utilização de lentes macro.

Considerei que o trabalho tinha um nível médio de dificuldades, levando em conta dimensões diferentes, variedade de materiais: madeiras, plásticos foscos e transparentes, borrachas, metais inoxidáveis. Enfim, tratamentos diferentes e cuidados de iluminação que cada um desses materiais exigia.

Tive o cuidado de solicitar três amostras das peças para levar para o estúdio e fazer um teste para que a Sra. Supervisora visse a qualidade do trabalho. Resultado que ela não questionou em nenhum momento.

Fico imaginando que para me oferecer R$ 2,00 por foto, a supervisora de marketing deva ter recebido um orçamento de outro fotógrafo com este valor unitário.

Imagino também que este fotógrafo deva ser um profissional, que não conheço, que deva ter um equipamento razoável, um estúdio, uma estrutura, pague impostos, enfim; queira no futuro continuar trabalhando com fotografia. Porém, se continuar se submetendo a valores como este dificilmente isto ocorrerá. Não terá futuro na fotografia, porque fotografar profissionalmente hoje, exige acima de tudo, evolução, atualizações e aprimoramentos, e isso custa, e não é pouco. Além de que ele solapa o trabalho e o futuro de outros profissionais, fazendo o empresário pensar que a fotografia não tem custo.

Trabalhando desta forma, ou ele não precisa do dinheiro de seu trabalho, o que pode acontecer, ou não tem a noção do valor do seu trabalho e muito menos o valor que suas fotos agregarão aos materiais de divulgação de seu cliente.

O empresário que pensa pequeno, pensa apenas no lucro dele, e com isso ele aniquila seu fornecedor. Isso tem sido uma regra ignorante utilizada por empresários despreparados.

 Aprendi durante esses muitos anos atendendo empresas, fossem pequenas, médias ou grandes, que quando o orçamento de fotografia é discutido no departamento de compras, o trabalho do fotógrafo se mistura com porcas e parafusos

Fotos de culinária sempre são desafiadoras.

Chuleta é um corte especial de carne bovina que inclui: picanha, filé mignon,contra filé,calcatra e fraldinha

Quando se confirmou o trabalho eu tinha pouquíssimas informações sobre quais pratos deveríamos fotografar. A opção um, seria fazer as fotos em estúdio, porém decidimos que deveríamos fazer no salão do restaurante em um dia que estivesse fechado, assim teríamos a cozinha e os ajudantes disponíveis.

De manhã cheguei ao Amadeus com um mini estúdio e antes de montá-lo conversei com o diretor de arte que me passou o briefing de como gostaria de ter as fotos.

Fundo escuro, tons amarelos nas fotos, com leve saturação para facilitar a diagramação das peças gráficas e profundidade de campo reduzida.

Observei o salão e notei que uma das paredes tinha cinco janelas com persianas horizontais, fechei-as todas e deixei o salão em uma leve penumbra. Armei uma mesa ampla contra esta parede sob uma das janelas e forrei-a com o verso de uma placa de fórmica, que untei com óleo para escurecê-la.

Sugeri como grelhar a chuleta, e como tostar as laterais da gordura sem queimá-la. Montamos a produção.

Controlei a contra luz vinda da janela, através das persianas. Cobri o fundo acima da mesa com uma placa de isopor a 0,50m de altura para escurecê-lo em degradê, e fiz todas as fotos dessa maneira.

Em alguns momentos usei a luz através das persianas laterais, controlando-as como se tivessem um “potenciômetro,” outras vezes, apenas a persiana sobre a mesa. Acima da janela, uma arandela com lâmpada incandescente de 100 watts produziu os tons quentes das fotos.

ISO 200, lente em 29 mm para distorcer levemente o conjunto, F/4.0 para pouca profundidade de campo e 1/2seg de exposição

Sem flashes, difusores, colméias, sombrinhas ou rebatedores.

Simples assim.

Um beijo na Batista.

Batista de Carvalho é o nome de uma importante rua central em Bauru. SP.

Durante o desenvolvimento do Projeto ”A cara da Batista”, um grupo de fotógrafos de Bauru, Focopoint,

documentou as atividades daquela rua, aos sábados de manhã. Em abril de 2009, fotografei um casal que saía de uma loja.

Felizes eles comemoravam alguma coisa. Ele acabara de entregar um presente a ela e os dois se beijavam.

Fiz a foto. Um único shot. Não conversei com o casal e nem sabia se eles haviam notado minha presença.

A foto entrou na seleção para uma exposição itinerante e atualmente parte da seleção está exposta

na mini galeria Doceana, do Sílvio, um dos participantes do grupo de fotógrafos.

É lá também que o grupo de fotógrafos se reúne aos sábados de manhã.

Quase um ano depois, reunidos no sábado de manhã, as fotos ainda expostas, entram duas mulheres na Doceana.

Uma delas era a jovem do beijo perguntando quem havia feito a foto.

Suspense: – e todos olharam para mim – Fui eu, falei.

Adorei, disse ela sorrindo.

Aliviado perguntei seu nome, e se o homem da foto ainda estava na vida dela. Ela respondeu sorrindo, dizendo que sim.

Disse me que queria uma cópia.

Falei que faria e entregaria durante esta semana.

Aqui estou ligando para ela para dizer que cópia está pronta.

Fotógrafos vivem “tirando fotos” para que de alguma forma possam devolvê-las processadas, não por bytes e ou processos químicos, mas, pela emoção.

O l i c i o P e l o s i
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BIBLIOGRAFIA PARA ENTENDER A FOTOGRAFIA.

A bibliografia abaixo é uma compilação de todas as leituras pelas quais passei durantes os anos de formação teórica em cursos de pós graduação e em diferentes universidades, em uma constante  busca para entender a fotografia

Os títulos listados cobrem áreas da: História das Artes e Fotografia, Filosofia, Estética e poucos de Sociologia.

Como toda lista, esta bibliografia carece de atualizações, porém acredito que nela temos o que há de mais importante já publicado a respeito da Fotografia.

Agradeço as possíveis indicações de novos títulos.

Em breve republicaremos com as indicações

ARGAN, G.C. – A arte moderna. São Paulo: Cia. das Letras,1992

BOURDIEU, P. – O poder simbólico. LIsboa: DIFEL, 1989.

FRANCASTEL P. – A realidade figurativa. Trad. Mary A. L. Barros.

 São Paulo: Perspectiva/EDUSP, 1973.

– Imagem, Visão e Imaginação. São Paulo: M. Fontes , 1983

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BAXANDALL, M. – O olhar renascente –São Paulo : Ed. Paz e Terra, 1991

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– A câmara clara. Trad. Manuela Torres. Lisboa: Edições 70, 1981.

BATISTI, E. – Renascimento e maneirismo. Lisboa: Editorial Verbo, 1994.

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